15 de junho – Evelyn Underhill, 1941

Evelyn Underhill
Evelyn Underhill não é uma figura comum entre os mestres da oração. Ela não foi, como muitas santas
mulheres cristãs o foram, uma freira, mas uma dona-de-casa inglesa, que viveu toda a sua vida nos
subúrbios próximos de Londres. Talvez por esta razão, seus ensinamentos e exemplo são bem
relacionados às necessidades do povo de fala inglesa que vive nas assim chamadas sociedades
“avançadas”. Ela acreditava e pensava que Deus pode nos alcançar e inspirar nossas orações, mesmo
quando nossas vidas e circunstâncias são praticamente “comuns” e pouco místicas.
Nasceu em 1874, filha de Arthur Underhill, um conhecido advogado. A família, então, estava
estabelecida em Wolverhampton, mas logo se mudou para Londres onde, em 1907, casou-se com
Hubert Stuart Moore, também advogado. Evelyn manteve seu sobrenome de solteira em sua carreira de
escritora, que começou cedo. Ela já tinha publicado pequenas peças durante sua adolescência.
Não está claro se os livros sobre experiência “mística” ou as experiências propriamente ditas vieram
antes, mas certamente nos primeiros anos do Séc. XX, Evelyn Underhill, da mesma maneira que
outros, durante esse período, estava intensamente atraída por esta maneira de ver o mundo.
Sua educação religiosa na Igreja da Inglaterra tinha sido formal e sua família podia se considerada
como cristã convencional. Sua rejeição por essa situação e sua excitante descoberta pessoal dos grandes
textos místicos e das personalidades do Leste e do Oeste, estão incorporadas em todas as suas
publicações de antes da 1ª Grande Guerra, inclusive em três novelas. Muito do material histórico
místico e não-ocidental que a fascinou era, então, difícil de ser encontrado e ela, pessoalmente, foi uma
das primeiras a divulgá-lo e torná-lo acessível a pessoas comuns. Sua grande contribuição deste
período foi “Misticismo” (1911), mais tarde revisado profundamente e frequentemente reeditado.
Antes de seu casamento, Evelyn Underhill tornou-se católica-romana. Dúvidas pessoais e a oposição de
seu marido, finalmente, fizeram-na retornar à Igreja da Inglaterra, mas durante certo período, ela
sentiu-se como se estivesse “sem-igreja”. Por volta de 1922, sob a inspiração de um grande teólogo
católico leigo, Frederico Von Hügel, voltou a ser membro comungante da Igreja da Inglaterra e ambos
inspiraram e orientaram muitos anglicanos, que se sentiam atraídos à prática da oração contemplativa.
Von Hügel inspirou muito do seu pensamento posterior, e foi dele que ela elaborou uma máxima
fundamental para sua conduta em relação àqueles aos quais tinha condições de auxiliar: “A melhor
coisa que podemos fazer por aqueles a quem amamos é ajudá-los a escapar de nós”.
Uma contribuição significativa de seus últimos anos foi seu livro “Adoração” (1936), que introduzia e
analisava a grande tradição dos ritos e orações públicas, assim como foram herdadas, tanto no Ocidente
como no Oriente.
Como orientadora espiritual ou “uma amiga da alma”, Evelyn Underhill frequentemente encontra-se
face a face com aquela sede por uma “experiência” especial ou privilegiada, a qual ela, pessoalmente,
havia conhecido. Ela tentava direcionar tais buscas para um amor gentil pelos sacramentos e um
tranqüilo auto-abandono em Deus, nas atuais circunstâncias daquelas vidas. Seus ensinamentos podem
ser encontrados em muitos livros pequenos, baseados em seus retiros e mensagens, em suas cartas e nas
memórias daqueles que a conheceram e compartilharam de sua presença tranqüila e calma sabedoria.
Ela gostava de velejar e de caminhadas pelo campo com seu marido (que não estava, até então,
interessado em sua vida espiritual) e praticava várias artes manuais. Em 1920, ela tomou parte na
tentativa de repensar o relacionamento entre religião e sociedade, inspirada pelo Arcebispo William
Temple; mais tarde, se tornou jornalista de tempo parcial no “Spectator” e contribuía regularmente para
outros jornais. Ao tempo de sua morte, em 1941, ela era ainda, como tinha sido desde o começo dos
anos trinta, uma cristã pacifista convicta.
Evelyn Underhill comunicou por palavras e testemunho o seu senso especial da incomensurável
realidade da natureza divida invisível no pensamento trinitário, mas não percebida, na fé cristã. O
esforço de sua maturidade tinha sido reconhecer, em toda a sua força e profundidade, a doutrina cristã
concernente à encarnação de Cristo. Sua docilidade e, finalmente, a alegre culminância de sua fé, e sua
dedicação a isto no aprender e crescer na oração, é uma das marcas do seu desenvolvido ensinamento
espiritual. Ela foi uma mestra da oração numa grande tradição cristã.
Nossa Herança
Deus,
que permaneces tão decisivamente acima de nossa vida,
fonte de todo o esplendor e de toda a alegria,
estás ainda em um contato muito próximo e carinhoso conosco;
e nos levas, através de todo esplendor e alegria, em direção à verdade.
Ele realizou sua criação em nós,
quase como que um desejo ardente para ele próprio,
de tal modo que os breves momentos da eternidade, que algumas vezes nos visitam
fazem tudo o mais parecer cinzas e pó, sem vida e sem valor.
Portanto,
não pode haver situação em nossa vida, nem atitudes, nem preocupaçãoes ou relacionamentos que nos
impeçam de olhar para esse Deus de verdade absoluta, e dizer “Pai Nosso” de todos nós e de todas as
outras almas envolvidas.
Nossa herança é Deus, nosso Pai e nosso Lar.
Nós o reconhecemos, diz São João da Cruz, porque nós sempre carregamos em nossos corações um
áspero esboço do semblante bem-amado.
Olhando para estas profundezas,
tal como para uma silenciosa lagoa numa floresta escura,
nós lá encontraremos olhando para nós a face que, por tanto tempo e implicitamente, já conhecemos.
Ela está num outro mundo,
numa outra luz: mas também está aqui.
Na medida em que nos apercebemos disso, nossa oração flui até que ela possa incluir os extremos de
adoração respeitosa e do amor confiante, e tudo isso se funda numa coisa só.
Evelyn Underhill
Masters of Prayer
Oração de Santo Agostinho
Tarde te amei,
ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim,
e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme,
lançava-me sobre as belas formas
das tuas criaturas.
Estavas comigo,
mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas,
que não existiriam
se em ti não existissem.
Tu me chamaste,
e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste,
e tua luz afungentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragância
e, respirando-a,
suspirei por ti.
Eu te saboreei,
e agora tenho fome e sede de ti.
Tu me tocaste,
e agora estou ardendo no desejo de tua paz.

Fonte: Dom Luiz Osório Prado, IEAB