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20 de agosto – Jonathan Myrick Daniels

ago 17 2021 Jonathan Myrick Daniels – (20 de março de 1939 – 20 de agosto de 1965) Foi um seminarista episcopal e ativista dos direitos civis. Em 1965, ele foi assassinado por um deputado especial do condado com uma espingarda, Tom Coleman, que trabalhava na construção civil, em Hayneville, Alabama , enquanto protegia Ruby Sales, de 17 anos . [1] Ele salvou a vida de um jovem ativista negro pelos direitos civis. Ambos estavam trabalhando no movimento não violento pelos direitos civis no condado de Lowndes para integrar locais públicos e registrar eleitores negros após a aprovação da Lei de Direitos de Voto naquele verão. A morte de Daniels gerou mais apoio ao movimento pelos direitos civis. Em 1991, Daniels foi designado mártir na Igreja Episcopal e é reconhecido anualmente em seu calendário. Nascido em Keene, New Hampshire , Jonathan Myrick Daniels era filho de Phillip Brock Daniels (14 de julho de 1904 – 27 de dezembro de 1959), [4] um médico e congregacionalista , e sua esposa Constance Weaver (20 de agosto de 1905 – 9 de janeiro , 1984). Daniels pensou em seguir carreira no ministério desde o ensino médio e entrou para a Igreja Episcopal ainda jovem. Ele frequentou escolas locais antes de se formar no Instituto Militar da Virgínia . [5] Ele começou a questionar sua fé religiosa durante seu segundo ano, possivelmente porque seu pai morreu e sua irmã Emily sofreu uma doença prolongada ao mesmo tempo. Ele se formou como orador da turma. No outono de 1961, Daniels ingressou na Harvard University para estudar literatura inglesa. Na primavera de 1962, durante um culto de Páscoa na Igreja do Advento em Boston, Daniels sentiu uma convicção renovada de que estava sendo chamado para servir a Deus . Logo depois, ele decidiu buscar a ordenação . Depois de resolver os problemas financeiros da família, ele se inscreveu e foi aceito na Escola Teológica Episcopal em Cambridge, Massachusetts , iniciando seus estudos em 1963 e esperando se formar em 1966. Em março de 1965, Daniels atendeu ao apelo de Martin Luther King Jr. , que recrutou estudantes e clérigos para se juntar ao movimento em Selma, Alabama , para participarem da marcha pelo direito de voto de Selma à capital do estado de Montgomery . Daniels e vários outros estudantes do seminário partiram para o Alabama na quinta-feira, com a intenção de passar o fim de semana. Depois que Daniels e sua amiga Judith Upham perderam o ônibus para casa, eles mudaram de idéia sobre sua curta estada. Os dois voltaram ao seminário apenas o tempo suficiente para pedir licença para passar o resto do semestre trabalhando em Selma, onde também estudariam por conta própria e voltariam no final do semestre para fazer os exames. Em Selma, Daniels ficou com os Wests, uma família afro-americana local. Durante os meses seguintes, Daniels trabalhou para integrar a igreja episcopal local, levando grupos de jovens afro-americanos à igreja. Os membros da igreja não foram acolhedores. Em maio, Daniels voltou ao seminário para fazer os exames do semestre e foi aprovado. Daniels voltou ao Alabama em julho para continuar seu trabalho. Ele ajudou a montar uma lista de agências federais, estaduais e locais que poderiam fornecer assistência aos necessitados. Ele também deu aulas particulares de crianças, ajudou moradores pobres a se inscreverem para obter ajuda e trabalhou para registrar eleitores. Naquele verão, em 2 de agosto de 1965, o Congresso aprovou a Lei de Direitos de Voto, que forneceria ampla supervisão federal e aplicação do direito constitucional de voto. Antes disso, os negros haviam sido efetivamente excluídos em todo o Sul desde a virada do século. Em 14 de agosto de 1965, Daniels fazia parte de um grupo de 29 manifestantes, incluindo membros do Comitê de Coordenação Estudantil Não-Violento (SNCC), que foi a Fort Deposit, Alabama , fazer piquete em suas lojas exclusivas para brancos. Todos os manifestantes foram presos. Eles foram transportados em um caminhão de lixo e levados para a prisão na cidade vizinha de Hayneville . A polícia libertou cinco jovens manifestantes no dia seguinte. O restante do grupo ficou detido por seis dias em uma instalação sem ar-condicionado. [6] As autoridades se recusaram a aceitar fiança para qualquer pessoa, a menos que todos estivessem sob fiança . Finalmente, em 20 de agosto, os prisioneiros foram libertados sem transporte de volta para o Forte Deposit. Após a libertação, o grupo esperou perto da prisão do tribunal enquanto um de seus membros pedia transporte. Daniels com três outras pessoas – um padre católico branco e duas ativistas negras – caminharam para comprar um refrigerante gelado na vizinha Varner’s Cash Store, um dos poucos lugares locais para servir não-brancos. Mas barrando a frente estava Tom L. Coleman, um deputado especial não remunerado que segurava uma espingarda e uma pistola no coldre. Coleman ameaçou o grupo e apontou sua arma para Ruby Sales, de 17 anos . Daniels empurrou Sales para baixo e pegou o tiro total da espingarda. Ele foi morto instantaneamente por um tiro. O padre Richard F. Morrisroe agarrou a ativista Joyce Bailey e correu com ela. Coleman atirou em Morrisroe, ferindo-o gravemente na parte inferior das costas, e então parou de atirar. [7] Ao saber do assassinato de Daniels, Martin Luther King Jr. afirmou que “um dos atos cristãos mais heróicos de que ouvi falar em todo o meu ministério foi realizado por Jonathan Daniels.” [8] Um grande júri indiciou Coleman por homicídio culposo . Richmond Flowers Sênior , o procurador-geral do Alabama, acreditava que a acusação deveria ter sido de assassinato e interveio na acusação, mas foi impedido pelo juiz de primeira instância. Ele se recusou a esperar até que Morrisroe tivesse se recuperado o suficiente para testemunhar e removido Flowers do caso. Coleman alegou legítima defesa, embora Morrisroe e os outros estivessem desarmados, e foi absolvido das acusações de homicídio por um júri todo branco . [9] [10] ( Privação de direitosresultou na exclusão dos negros do dever de júri, como apenas os eleitores eram chamados.) Flowers descreveu o veredicto como representando o “processo democrático indo pelo ralo da irracionalidade, fanatismo e aplicação da lei imprópria.” [11] Coleman continuou trabalhando como engenheiro para o departamento de rodovias estaduais. Ele morreu aos 86 anos em 13 de junho de 1997, sem ter enfrentado nova acusação. [9] Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Jonathan_Daniels

7 de agosto – João Yasoji Ito

ago 05 2021

Traços nipônicos no rosto do protestantismo brasileiro
Ensaio sobre a vida de João Yasoji Ito
Japanese traces in brazilian protestantism’s face
Essay about João Yasoji Ito’s life
Recebido: 16/09/2018 | Aceito: 10/05/2019
Júlio César Tavares Dias1
Resumo: A partir do ano de 1908, começam a chegar ao Brasil imigrantes japoneses que se dedicaram a agricultura e estabeleceram colônias principalmente no estado de São Paulo. Para lhes prestar assistência espiritual, decide vir também do Japão o missionário anglicano João Yasoji Ito, cujo empenho evangelizador se mostra eficaz, pois muitos se converteram. Ito desempenhou várias atividades em prol de sua missão e buscou que as comunidades que fundou não fossem reconhecidas como igrejas dos japoneses, mas se incorporassem à sociedade brasileira. Esse representa um importante episódio da história do protestantismo no Brasil, uma vez que essa história é geralmente ligada à vinda de missionários da América do Norte.
Palavras-chave: anglicanismo; protestantismo; imigração japonesa; evangelização; liderança evangélica.
Abstract: Since 1908 Japanese immigrants begun to arrive to Brazil. They worked in agriculture and stablished colonies principally in the state of São Paulo. João Yasoji Ito, Anglican missionary, decided to come from Japan for give them spiritual help. His missional efforts were much efficient, because many immigrants converted. Ito developed a lot of activities and looked for communities founded by him weren’t known as Japanese churches, but they were embodied to Brazilian society. This represents an important episode in Protestantism History in Brazil, usually associated to coming of missionaries from North America.
Keywords: Anglicanism; Protestantism; Japanese immigration; evangelization; evangelical leadership.
Primeiras Palavras2
“Ele preserva as narrativas dos homens renomados”
Eclesiástico 39,2
1 Doutor em Ciência da Religião pela UFJF, Mestre em Ciência da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Licenciado em Letras pela Universidade de Pernambuco (2007) e Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). E-mail: juliocesartdias@hotmail.com.
2 Antes de submetido a publicação este texto foi apreciado pelos olhos competentes da Revda. Carmen Kawano, cujos trabalhos aparecem nas referências, a quem é preciso agradecer. Também agradecemos a Breno Henrique da Silva Ricardo, aluno do Mestrado em História Social da Universidade de São Paulo, pela leitura atenta visando à revisão textual.
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A imagem de um rosto plural cai muito bem ao mundo evangélico, por esse ter se dividido em muitas denominações. No Brasil, esse rosto é peculiar pois, marcado principalmente por traços norte-americanos, queremos delinear traços japoneses: poderíamos quiçá falar de um protestantismo nikkei, isto é, nipo-brasileiro. No nosso cotidiano, podemos encontrar aqui ou ali a influência japonesa, seja na culinária – aliás, em qualquer praça de alimentação de qualquer shopping center do Brasil, é possível encontrar a alternativa de comer um sushi – mas também o extremo oriente tem seu lugar na indústria de entretenimento com seus animes e mangás, que agradam tanto a um parcela do público juvenil que alguns jovens se tornam otaku3. Mas, além desses traços culturais, os japoneses trouxeram para o Brasil também suas religiões e, entre eles, alguns eram cristãos, mais especificamente, alguns eram protestantes, e mais especificamente, alguns eram anglicanos.
Conforme Ozaki (1990, p. 11), “a imigração japonesa para o Brasil começou oficialmente em 1908 com a chegada do navio ‘Kasato-maru’, que aportou em Santos no dia 18 de junho do mesmo ano, trazendo a bordo o primeiro grupo de 168 famílias, totalizando 781 pessoas”. Este ano completam-se 110 anos de imigração japonesa. Quando da comemoração do centenário da imigração japonesa e dos 75 da Paróquia de São João, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) providenciou publicar um livro, escrito pela Rev. Carmen Kawano, contando a vida do Rev. João Yasoji Ito, missionário japonês que fundou várias paróquias em São Paulo (inclusive a Paróquia de São João) e atuou também no Paraná. Queremos contribuir para o desenho do rosto do protestantismo no Brasil. Faremos isso a partir de um ensaio biográfico sobre o Rev. Ito, que veio ao nosso país, por seu próprio custo, para prestar assistência espiritual aos imigrantes, seus co-patrícios. Por meio do seu trabalho contínuo de evangelização, muitos deixaram suas antigas religiões e se tornaram cristãos.
Conforme Peter Burke (1997, p. 91),
a idéia de uma vida “escrita” pode ser encontrada na Idade Média. O termo biographia foi cunhado na Grécia no fim do período antigo. Antes disso, falava-se em escrever “vidas” (bioi). Em sua biografIa de Alexandre o Grande, Plutarco faz uma distinção importante entre escrcever história narrativa e escrever “vidas”, como ele mesmo estava fazendo. Nas ”vidas” havia espaço para abordar tanto a esfera privada quanto a pública, para descrever a personalidade individual através de pequenas pistas, “algo pequeno como uma frase ou um chiste”.
Esta distinção de Plutarco foi depois constantemente retomada:
Amyot no prefácio de sua tradução, explicando que a história se ocupa dos feitos dos homens, enquanto a função da biografIa é esclarecer “leur nature, leurs dits et les moeurs”. Montaigne, em seus Ensaios (livro 2, cap. 10), bateu na mesma tecla a defender Plutarco contra seus críticos, elogiando-o por se preocupar com a vida interior (“ce qui part du dedans”), ao invés de
3 É um termo usado para aqueles que têm interesse por elementos da cultura japonesa, principalmente animes e mangás.
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se voltar para o acidente dos eventos externos (“ce qui arrive au dehors’) (BURKE, 1997, p. 91).
Conforme Sérgio Costa (2018, p. 20-25), em seu Dicionário dos Gêneros Textuais, o gênero biografia está ligado a capacidade linguística de narrar (segundo a tipologia de Schnewly, Dolz e seus colaboradores) e ao discurso literário (segundo tipologia que o próprio Sérgio Costa elabora, observando tanto o conceito de gênero textual quanto o de gênero discursivo). Lemos o verbete biografia em seu dicionário: “narração oral, escrita ou visual dos fatos particulares da vida de uma pessoa […] em livro, filme, texto teatral, disco óptico, etc. Quanto à forma pode ser elaborada em forma cronológica ou em forma narrativa” (COSTA, 2018). Mais importante do que uma definição da biografia enquanto gênero textual, é-nos importante inteirar-nos das discussões sobre sua valia para o ofício do pesquisador.
Conforme Mary Del Priore (2009, p. 7), “até a metade do século XX, sem ser de todo abandonada, ela [a biografia] era vista como um gênero velhusco, convencional e ultrapassado por uma geração devotada a abordagens quantitativas e economicistas”. Conforme a historiadora, a biografia caminhou das histórias dos heróis gregos contadas por Herodoto e Tucídides para a hagiografia, sendo nos dois casos modos de “incentivar modelos aos leitores” (DEL PRIORE, 2009, p. 7).
Com o Renascimento, o mundo social mudou o seu núcleo: o individualismo se afirmou e não deixou de se afirmar nos séculos seguintes, quando virou moda escrever “sobre sua vida”. O herói medieval, no século XVIII, foi substituído pelos grands hommes que “contrariamente ao herói, o ‘grande homem’ tinha que ter uma função: ser proveitoso à sociedade” (DEL PRIORE, 2009, p. 8). As ideias de “nação”, no século XIX, contaram, para sua construção, com biografias de heróis e monarcas. Já no início do século XX, sobre a influência de Marc Bloch e Lucien Fébvre, “ao minimizar a história política, diplomática, militar ou eclesiástica que evidenciava o indivíduo e o fato, a Nova História, nascida dos Annales nos anos 60, optou por privilegiar o ‘fato social total’ em todas as suas dimensões econômicas, sociais, culturais e espirituais” (DEL PRIORE, 2009, p. 8).
Convém agora verificarmos como se deu o atual reencantamento dos historiadores com a biografia. Lucien Fébvre, autor de biografia de Lutero e Rabelais, foi pioneiro nesta retomada, advogando uma “biografia modal”. Para ele, “os homens, únicos objetos da história […] sempre capturados no quadro das sociedades a que pertencem” (apud DEL PRIORE, p. 9, grifo nosso). Porém, só nos anos 70 e 80, teve fim a rejeição histórica da biografia. Foi quando “o fenecimento das análises marxistas e deterministas, que engessaram por décadas a produção historiográfica, permitiu dar espaço aos atores e suas contingências novamente” (DEL PRIORE, 2009, p. 9). Mas foi a crítica que fez Pierre Bordieu, em um texto seu antológico, A Ilusão Biográfica, publicado em 1986 nas Actes de la Recherche en Scíences Socíales, que desafiou os historiadores a pensar a partir de novos ângulos a biografia.
Para Bourdieu (2005), “falar de história de vida é pelo menos pressupor – e isso não é pouco – que a vida é uma história […] É exatamente o que diz o senso comum, isto é, a linguagem simples”. A crítica é de que o ofício historiográfico estava caindo em um http://revistas.pucsp.br/culturateo
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simplismo. Os historiadores reagiram, reinventando a biografia: não eram mais apenas os grandes homens o seu objeto, nem ela se colocava como quase um sinônimo da hagiografia:
A biografia não era mais a de um indivíduo isolado, mas a história de uma época vista através de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos. Ele ou eles não eram mais apresentados como heróis, na encruzilhada de fatos, mas como uma espécie de receptáculo de correntes de pensamento e de movimentos que a narrativa de suas vidas torna mais palpáveis, deixando mais tangível a significação histórica geral de uma vida individual (DEL PRIORE, 2009, p. 9).
Isso é o que acreditamos poder fazer a partir da história de vida de João Yasoji Ito. Descrevê-lo como um santo não é nosso intento, mas, a partir dele, vermos como os imigrantes japoneses foram reconstruindo seu mundo, principalmente pelo recurso da conversão ao anglicanismo.
Anglicanismo na Terra do Sol Nascente e no país do futuro
“Pois do Levante ao Poente grande é o meu nome entre as nações”
Malaquias 1,11
O Anglicanismo não é a denominação protestante entre nós mais conhecida4. São cerca de 100 mil anglicanos no Brasil. O nome anglicano normalmente é logo associado a uma postura progressista, liberal, à ordenação de mulheres e à ideia de que é a igreja da rainha da Inglaterra. O Conselho Mundial de Igrejas reunido em 1948 afirmara que “o abismo que nos separa são as tradições protestante e católica”. Assim, a espiritualidade anglicana tem um testemunho ímpar no seio da cristandade, por se constituir como uma “via média”5, procurando “manter unidas, numa comunhão visível e espiritual, ambas as tradições” (IEAB, 1960, p. 52).
Talvez alguém, ao ouvir o nome anglicano, lembre ainda algo de uma aula na escola em que ouviu falar que se trata da igreja fundada pelo rei inglês Henrique VIII, cuja motivação seria por ter seu pedido de divórcio6 negado pelo Papa. Isso não
4 Os interessados em conhecer mais a Igreja Episcopal Anglicana no Brasil (IEAB) podem ter dela uma rápida apresentação assistindo os documentários produzidos pela TV Brasil, para o programa Retratos de Fé, o realizado pelo Observatório da Religião da UNICAP, e o da jornalista Débora Settim. Uma apresentação do ethos e da fé anglicana é feita no livro de John Baycroft (2009), distribuído pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), em linguagem bastante acessível “como uma simples receita no verso de uma caixa de massas prontas para fazer bolo” (BAYCROFT, 2009, p. 9) e também, em Inglês, no livro de Mark Chapman (2006). Essas são sugestões que levam em conta a linguagem bastante acessível mais que o rigor acadêmico.
5 Isso às vezes nos faz questionar sobre a exatidão de considerar o anglicanismo como parte do protestantismo. Talvez seja, na verdade, uma “terceira via”, ou seja, de tanto que é católica e reformada, não é nem católica nem reformada, mas uma outra igreja, como é a Igreja Ortodoxa. Quem sabe o caso seja que ela é católica demais para os protestantes e protestante demais para os católicos!
6 O argumento partia da injunção bíblica que não permitia a um homem casar com a mulher de seu irmão (Lv 20,21). “Since Katherine had been married to Henry’s brother Arthur, this would have had the effect of nullifying his marriage” (CHAPMAN, 2006, p. 15).
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responde bem às origens da Igreja Anglicana. Na verdade, essa separação da Igreja da Inglaterra do catolicismo, em 1534, não significou, a princípio, mais do que uma mudança de mandatário: do papa para o rei. A igreja continuava praticamente a mesma. Além disso, quando o catolicismo chegou à Inglaterra7, já havia de muitos tempos cristãos, que tinham uma igreja já organizada, a qual nunca chegou a ser bem absolvida pela recém-chegada Igreja Romana8. Por meio de contatos com luteranos e calvinistas da Europa Continental, a teologia e a liturgia foram reformuladas, surgindo, em 1549, o primeiro Book of Common Prayer, que é o livro de liturgia da igreja anglicana, e os “39 Artigos de Religião”, que é uma declaração doutrinária da Igreja da Inglaterra9. Nos séculos XIX e XX, a Igreja da Inglaterra acompanhou a expansão do Império Britânico, estabelecendo-se na Austrália, Nova Zelândia, África, Ásia, Hong-Kong, Índia, América do Sul e Central, etc (CALVANI, 2005, p. 38-39).
Nippon Seikokai. O cristianismo chegou no Japão em 1549, através do jesuíta Francisco Xavier em Kagoshima, e foi bem aceito pelos japoneses que o entendiam “apenas como uma forma de budismo” (FREDÉRIC, 2008, p. 201). Inicialmente bem aceito, o cristianismo foi depois perseguido e guetizado, inclusive quando o país se fechou10 em 1639, situação que foi mudada, apenas em 1868, com a restauração do poder do imperador, quando vários missionários americanos chegaram ao Japão. Nesse país, a Igreja Anglicana tem o nome de Nippon Sei Ko Kai (NSKK), fundada por missionários americanos (1859) e ingleses (1869 e 1873) que se uniram em 1887. Essa denominação dirige a universidade Rikkiô em Tóquio e a universidade Momoyana Gakuin em Osaka, além de diversos hospitais e institutos de caridade (FREDÉRIC, 2008, p. 1019). Não muito dada ao proselitismo11, a Seikokai se dedicou unicamente a obras sociais. Embora não demograficamente expressivo12, o cristianismo permanece muito ativo no Japão (FREDÉRIC, 2008, p. 202).
Imbuída de um senso de dever para com a nação, no tempo da expansão imperial japonesa, a NSKK enviou missionários a Taiwan, Coréia e Manchúria, dirigindo atenção principalmente aos japoneses expatriados (KAYE, 2008, p. 58). Acreditando que a nação japonesa estava destinada a ser a maior potência asiática, acreditava-se que era seu dever iluminar a esperança da civilização pelos seus países próximos, para o que a ação missionária desenvolveria importante papel (KAYE, 2008, p. 59). O primeiro Sínodo Geral da NSKK aconteceu em Osaka em 1887 e os seus primeiros bispos foram
7 Foi Agostinho (de Cantuária, e, não, o de Hipona) quem, em 596, levou as Boas Novas de Roma para o sul da Grã-Bretanha.
8 “A Igreja da Inglaterra não era uma Igreja nova, que teria sido estabelecida na época da Reforma. A Igreja da Inglaterra era a mesma antiga Igreja que se recusou a aceitar a jurisdição do Bispo de Roma no território inglês” (BAYCROFT, 2009, p. 55).
9 Nas igrejas anglicanas de outros países (chamadas províncias) os 39 artigos de Religião são um documento histórico, mas, não, normativo.
10 Foram mais de duzentos anos de reclusão voluntária do Japão (sakoku) para o Ocidente. Pressionado pelo Comodoro Mathew C. Perry, representante dos Estados Unidos, o governo japonês abriu seus portos ao comércio norte-americano, firmando o Tratado de Kanagawa em 1854 (DEZEM, 2005, p. 129).
11 Mesmo que fosse, “the Japanese government would not allow proselytising, a rule which remained until 1871” (KAYE, 2008, p. 58).
12 O sucesso da recuperação sócio-econômica do país das cerejeiras após a 2ª Guerra Mundial, ao ser atribuída às religiões tradicionais, freou o sucesso da expansão do cristianismo.
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consagrados em 1923. Alcançou sua autonomia em 1972. Durante a 2ª Guerra Mundial13, a igreja esteve debaixo de muita pressão, chegando o governo japonês a expulsar todo clero estrangeiro em 1942 (NSKK). A Lei de Corporação Religiosa, de 1939, demandava que todos os grupos cristãos deveriam juntar-se, a despeito de suas diferenças, em uma única igreja, a Koydan (Igreja Unida). O Bispo Sasaki, ao tentar uma exceção para a NSKK, foi preso. Liberto após terminada a guerra, tornou-se uma figura importante na restauração da NSKK, pois um terço dela havia se juntado a Koydan (KAYE, 2008, p. 59). Hoje a NSKK é formada por cerca de 300 igrejas, divididas em 11 dioceses, tem 230 clérigos e cerca de 32 mil membros (NSKK).
No País do Futuro14. Salienta Calvani (2005) que, peculiarmente, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil não se encaixa na tradicional classificação de Antônio Gouveia Mendonça de protestantismo de imigração e de missão. Mais antiga denominação protestante no Brasil, o anglicanismo no Brasil começou com as capelanias inglesas. Depois vieram missionários norte-americanos que começaram a fazer evangelização em Porto Alegre. Por muito, essas duas vertentes caminharam paralelas até que se uniram15, semelhantemente, como vimos, ao que aconteceu no país das cerejeiras. Em 1810, Brasil e Inglaterra assinaram um tratado de amizade e comércio. A partir daí que puderam se estabelecer, no Brasil, as capelanias inglesas, com algumas restrições: “desde que essas realizassem os cultos em inglês, fossem freqüentadas apenas por britânicos e não tivessem aparência exterior de templo” (CALVANI, 2005, p. 40). Em 1819, foi inaugurada a Christ Church, primeira capela anglicana no Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1889, chegaram ao Brasil Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris, missionários americanos. Só em 1965, a igreja obteve autonomia, passando a se chamar Igreja Episcopal do Brasil. Só em 1990, passou a se chamar Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Anos de formação16
“Não tenhas medo, pois eu te resgatei, te chamei pelo teu nome, tu és meu”
Isaías 43,1
13 Veremos adiante que, no Brasil, as comunidades anglicanas de origem japonesa também passaram por muitos percalços.
14 Foi o austríaco Stefan Zweig, auto-exilado no Brasil na década de 1940, quem primeiro se referiu ao país como “país do futuro”. As conferências e teses apresentadas por ocasião do primeiro congresso da Igreja Episcopal (como até então se chamava) foram publicadas em livro intitulado “A Igreja Episcopal no País do Futuro” (1960). Mais do que isso, importante é que os imigrantes assim viam o Brasil, um lugar para recomeçar.
15 Diferente do que aconteceu com o luteranismo, representado no Brasil por uma vertente de imigração alemã (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB) e uma vertente de missão norte-americana (Igreja Evangélica Luterana do Brasil – IELB).
16 Os dados sobre a vida do reverendo João Yasoji Ito que aqui expomos são provenientes principalmente dos livros de Carmem Kawano (2008 e 2010), mas também do testemunho que escreveu o reverendo Estevam Shigueru Yuba (1993) e do documentário produzido pela jornalista Débora Settim (2016).
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Infância, juventude e estudos. Curiosamente, o nome Yasoji soa parecido com o nome ‘cristão’ em japonês. Por isso, meninos incomodavam Ito, ainda pequeno, chamando-o de cristão17, como forma de xingamento. Havia poucos cristãos no Japão. Podemos deduzir que não eram muito bem quistos pela sociedade em geral. De certa forma, então, foi devido ao seu nome que Ito veio a se tornar cristão. Yasoji Ito nasceu em 3 de dezembro de 1888, em Kami Ina-gun, aldeia campestre, na província que passou a se chamar Nagano. Segundo filho do casal Kenzo e Futsu, Ito perdeu a mãe muito cedo, aos 4 ou 5 anos. Por isso, foi criado pelos avós de quem recebeu muita influência, principalmente da avó, que costumava sempre ir ao templo xintoísta. Observando-a orar humildemente, surgiram em Ito os primeiros sentimentos religiosos.
Seus primeiros estudos foram na Escola de Miwa Mura, passando em 1900 para a Escola de Takato, onde fez o curso primário superior, concluído em 1904. Yasoji Ito passa a ajudar sua família na lavoura e a estudar inglês na igreja metodista da cidade, onde teve seu primeiro contato com a Bíblia e aprendeu a vida de Jesus. Sempre Ito esteve ligado ao trabalho do campo, o que lhe virá a ser muito importante quando missionário. Quando empreitou uma escalada na companhia de seu irmão mais velho, de um primo e de um amigo, teve uma “epifania”: a vista do cume do Monte Fuji, com nuvens elevadas muito acima dele, inspirou no grupo um sentimento de sagrado, de modo que todos os três instintivamente se ajoelharam. “Desde então, a experiência espiritual dessa ocasião dominou minha longa vida”. Quando voltou, uma decisão foi tomada: passou a frequentar a Igreja Metodista na cidade de Takato. “Por mais que os aldeões me criticassem, consegui decidir-me a seguir firme o caminho da fé”, escreveu (cf. KAWANO, 2010).
Em 1907, o jovem Yasoji ingressou na Escola de Navegação, aspirando ser um dia oficial. Passava a maior parte dos dias no mar, dividido entre as mais diferentes tarefas, tanto administrativas, quanto braçais. Porém, quando em terra, em seus dias de folga, frequentava diferentes igrejas, de diferentes denominações. Em 10 de setembro de 1908, por ter sido atingido por uma tempestade, o navio naufragou. Apenas Yasoji, o comandante do navio e o chefe dos marinheiros conseguiram sobreviver. Durante os quatro dias que passou no mar, agarrado a uma tora de madeira, Yasoji rezou, pediu a Deus que o salvasse e, então, dedicaria a vida ao seu serviço. Foi um barco pesqueiro que os avistou e os levou a terra firme. Salvo do mar e acolhido pela família do piloto do barco, sentiu-se “nos braços afetuosos do Pai”.
Muitos líderes cristãos se sentiram chamados para uma missão após uma experiência assim dramática18. Max Weber (1999) falara dos tipos de dominação ou liderança, sendo uma delas a liderança carismática. Para Weber, a força e estabilidade da liderança advém de sua legitimidade. Acreditamos que uma das fontes do carisma são experiências traumáticas, como as de quase morte e grande perigo, mas em que se experiencia um “salvamento” ou “livramento”. De experiências assim, advêm uma fé inabalável, um ânimo resiliente e uma virtude heroica que legitimam o líder.
17 Chamavam-no “Yasoji, Yaso Kyo”, isto é, “Yasoji, o cristão” (KAWANO, 2010, p. 6).
18 O Apóstolo Paulo sentiu-se chamado após cair de um cavalo e ficar cego (At 9); Martinho Lutero, quando se encontrou no meio de uma tempestade.
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Impressionado com o que passara no mar, convenceu-se de que Deus tinha realmente reservado algo para sua vida. Passou a frequentar a Paróquia Anglicana de São Salvador, na cidade de Shirakamibashi, em Osaka, onde recebeu o batismo em 25 de dezembro de 1910. Após concluir o curso na Escola de Navegação, ingressou no Seminário Anglicano da Santíssima Trindade, em Osaka, em março de 1911, sendo depois de três anos transferido a Tóquio, devido a uma fusão que houve dos seminários do Japão, para mais três anos de estudos. No entanto, devido a problemas de saúde – aliás desde o nascimento foi tido como de saúde frágil – atrasou sua formação, pois teve que interromper o curso por um período de dois anos para tratamento. Quando voltou para o seminário, todos os amigos já haviam se formado.
Apesar de sua saúde frágil, Yasoji em todos os verões ajudava a família na lavoura. Compensava sua fragilidade com uma enorme força de vontade. Desde os tempos de seminário, já tinha certo o desejo de ser missionário no exterior, pois, com o aumento da emigração, que ocorreu para aliviar a crise demográfica e os consequentes problemas sociais – inclusive dois de seus irmãos e muitos de sua província já haviam emigrado –, essas pessoas teriam, nas colônias que formavam, seu sucesso ou fracasso dependente da vida espiritual.
Preparação de Ito para vir ao Brasil. Ito formou-se em 1919, mas não encontrou apoio de pronto para vir ao Brasil como missionário. Foi designado para uma paróquia anglicana no sul de seu país, onde trabalhou de abril a setembro de 1919. Foi nesse ano que seus irmãos emigraram para o Brasil, vindo para a Colônia de Registro, no sudeste de São Paulo. Ito foi se despedir de seus irmãos no Porto de Kobe. No trem, encontrou Kaniho Nakamura, primeiro cidadão de Nagano a emigrar, que lhe mostrou um baú contendo cartas e fotos dos japoneses no Brasil e disse: “Temos somente notícias tristes que vem de lá. Isso se deve a falta de esteio e tranquilidade espiritual. Você é a pessoa mais apta para ir ao Brasil. Ito, entre de corpo e alma no trabalho missionário” (cf. KAWANO, 2010). Em setembro de 1919, foi para Tóquio e se preparou para emigrar. Associou-se a Rikkokai19, uma associação cristã que ajudava e preparava os japoneses para se adaptarem ao país de destino. Sem apoio da Igreja20, Ito partiu por conta própria. Por isso, antes de vir ao Brasil, foi aos Estados Unidos para trabalhar e, assim, juntar dinheiro para a missão. Para Ito, os Estados Unidos era a colônia do mundo. Estando lá, “seu intuito era observar e aprender com o trabalho de cultivo dos trabalhadores japoneses que haviam se instalado lá. Isto o prepararia para a vida e o trabalho na América do Sul” (KAWANO, 2010, p. 18).
19 Fundada em Tóquio no ano de 1897 pelo reverendo anglicano Hyodaiu Shimanuki (1866-1913), com o objetivo de elevação material e espiritual do povo japonês, a Companhia se dedicou aos jovens e principalmente aos estudantes pobres, efetivou uma colonização planejada. Incutia o desprezo pela bebida e o cigarro e por pedir favores aos outros, ao mesmo tempo que incentivava o empreendedorismo, o asseio e a prontidão para ajudar os outros. Todos que passavam pela Rikkokai recebiam uma bíblia e passavam por algo como uma breve catequese. A companhia trouxe, a partir de 7 de janeiro de 1923, milhares de imigrantes ao Brasil. O governo japonês pretendia que cada emigrante fosse um “embaixador do Japão”, querendo passar para o Ocidente a imagem de um país civilizado. A Rikkokai parece-nos foi bastante eficaz para que isso ocorresse (ASSOCIAÇÃO RIKKOKAI DO BRASIL, 1965).
20 Ito escreveu: “E apesar de contar com a proteção de Deus, muitos achavam que meu plano missionário não passasse de um sonho, uma conversa fiada” (KAWANO, 2010, p. 21).
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Ito deixou o Japão em dezembro de 1921. No dia seguinte de sua chegada em San Francisco, encontrou-se com o rev. Junkichi Mori, da Reformed Church. Ito atuou como pastor auxiliar dessa igreja por alguns meses. Mas a maior parte de seu tempo nos Estados Unidos, Ito foi trabalhador braçal nas fazendas no interior da Califórnia, sem domingo ou feriado. Fez uma economia radical, a ponto de quando mandar alguma carta usar algum envelope que já fora usado anteriormente, virando-o ao avesso. Assim, Ito conseguiu juntar cerca de 3 mil dólares e partiu, em fevereiro de 1923, de Nova York com destino ao Rio de Janeiro.
O missionário
“Mas eu tive como ponto de honra não anunciar o Evangelho a não ser onde o nome de Cristo ainda não fora pronunciado”
Romanos 15,20
Antes dos japoneses, emigraram para o Brasil outro povo oriental, os chineses, chamados coolies ou chim. A visão de raças que se tinha na época, inspirada principalmente por Arthur de Gobineau e seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1853), era de que o chinês era uma raça intermediária entre o branco e o negro, por isso próprio para ser trabalhador, mas não imigrante, isto é, muitos deles foram contratados por tempo determinado. Como retrata Dezem (2005), os chineses eram vistos como indolentes, “raça fraca” e cheios de vícios (ópio). A China era vista como uma nação cujo progresso havia parado há mais de mil anos, mas havia uma vantagem neles: ao contrário dos trabalhadores imigrantes de países europeus, aceitavam ganhar baixos salários. O empreendimento de empregar chineses na lavoura terminou não dando certo, devido, no entanto, ao fato de os fazendeiros não estarem prontos para tratar com homens livres. Tão habituados estavam com os escravos, infligiram castigos físicos aos coolies, muitos dos quais fugiram e voltaram à sua terra natal.
Ao contrário dos chineses, os japoneses eram vistos como uma raça disciplinada e o Japão, como o país mais adiantado do Extremo Oriente21. Em 1892, foi promulgada a Lei n. 97, cujo artigo 1º versava sobre a permissão dada à imigração japonesa. A partir daí, começaram esforços políticos entre o Japão e o Brasil a fim de efetivar a imigração. Em 1895, foi assinado pelos dois países o Tratado de amizade e comércio, marcando oficialmente o início das relações diplomáticas entre eles. O governo do estado de São Paulo comprometeu-se, depois, a subvencionar, total ou parcialmente, a passagem dos imigrantes japoneses (DEZEM, 2005, p. 117). Contudo, foi apenas em 1908 que aportou, em Santos, o primeiro grupo de japoneses, isto é, dezesseis anos após a lei que permitia a imigração japonesa. Por que demorou tanto? É que, até então, os Estados
21 Conforme Dezem (2005, p. 119), com quem concordamos, essa visão se consolidou com a vitória do Japão na Guerra Russo-Japonesa 1904/1905. Essa imagem era ambígua, pois se por um lado significava que o japonês era um povo empenhado e empreendedor, por outro significava que era um “perigo amarelo”.
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Unidos eram para os japoneses um lugar preferível para emigrar. Porém, logo passaram a ser estigmatizados lá22.
O versículo bíblico que trazemos por epígrafe foi a grande inspiração do ministério do reverendo Ito, pois era um versículo que lia frequentemente no tempo de seminário. Ele que lhe deu forças para, às suas próprias custas, sair do seu país com o intuito de evangelizar os imigrantes japoneses no Brasil. Quando chegou ao Brasil em 1923, já haviam emigrado para o Brasil 32 mil japoneses, no mesmo ano em que foi suspenso definitivamente23 o subsídio paulista para imigração japonesa (DEZEM, 2005, p. 309). A imagem dos japoneses começava já a mudar perante a sociedade brasileira, algo que Ito já testemunhara na estadunidense24.
Chegada e início da missão. Em 11 de março de 1923, Ito chegou ao Rio de Janeiro e se dirigiu a uma capela anglicana próxima à Av. Rio Branco, para agradecer a Deus por ter chegado em segurança. Leu o trecho bíblico de Miquéias 5,2, que lhe renovou o entendimento de que “mesmo as menores coisas que as mais humildes pessoas experimentam em seu cotidiano têm a sua essência” e “emocionado, convicto de ser um missionário, saí da igreja com a mente bem tranquila” (KAWANO, 2010, p. 28). Partiu em um trem noturno, no dia 12 de março, para São Paulo, onde se hospedou no Hotel Ueti, no Bairro da Liberdade. A Liberdade é até hoje, e não só na cidade de São Paulo, mas em todo Brasil, o bairro oriental por excelência. Foi em uma sala do mesmo prédio, o consultório do dentista Shinichiro Murakami, que realizou o primeiro culto com seis japoneses. Na tarde do dia seguinte, foi alugada uma sala na Rua Conde de Sarzedas por 60 mil réis. Ito ia de porta em porta, na cidade de São Paulo e arredores, evangelizando. No dia 15 de abril de 1923, realizou o primeiro culto na sala que alugara, reunindo desta feita 12 pessoas. A reunião seguinte contou com 30 pessoas, a maioria proveniente da Rikkokai. Um mês depois, porém, o dono requisitou o imóvel, pois não queria nele uma atividade religiosa que não fosse católica romana. Mudaram para outro local, mas na mesma rua. Houve um rápido crescimento do grupo, sobre o que escreveu Ito: “As pessoas vinham e voltavam para suas casas com uma forte vontade de seguir o caminho e evangelizando. Eles se tornaram bons missionários, não só no círculo de amizade, mas também falavam de Jesus Cristo para as pessoas que encontravam no dia a dia” (KAWANO, 2010, p. 32).
O missionário em Registro25. No mesmo mês de março, dia 27, o rev. Ito fez sua primeira viagem a Registro26. Em 1918 e 1919, começaram a chegar a Registro os
22 Conforme Dezem (2005, p. 234-235), “o governo japonês também alegava que a distância entre o Brasil e o Japão era muito grande e que os meios de comunicação eram nulos, correndo-se o risco de que, se a empreitada malograsse, qualquer companhia de imigração não teria meios pecuniários para pagar as despesas de repatriação dos imigrantes”.
23 No ano de 1913, o subsídio havia sido suspenso temporariamente.
24 Ito registrou: “Naquela época, os movimentos antinipônicos eram muito fortes, o que deixava os japoneses residentes nos Estados Unidos muito apreensivos” (KAWANO, 2010, p. 21).
25 Sobre a imigração em Registro (e em todo o Vale da Ribeira), vide o livro de Fukasawa (2013) Se o Grão de Arroz não Morrer.
26 Registro se situa a 185km à sudoeste da cidade de São Paulo e ficou conhecida como “capital do chá” depois da Segunda Guerra Mundial. Beirando a BR-116, entre as capitais São Paulo e Curitiba, Registro é uma cidade de planície e, devido à baixa altitude, com umidade o ano todo (FUKASAWA, 2013).
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primeiros japoneses, vindos da mesma região de Ito, Nagano. Ito tinha uma razão muito especial para visitar esta localidade, pois foi para lá que seus dois irmãos emigraram. O seu irmão mais velho, Timóteo Kikuzo Ito, havia recebido o batismo em 25 de dezembro de 1918, antes de deixar o Japão. Ito foi o primeiro missionário japonês. No entanto, o primeiro culto anglicano realizado entre os colonos japoneses não foi celebrado por Ito, mas pelo médico Kenzo Kitajima: o ofício de sepultura do irmão mais velho de Ito, que contraíra uma doença endêmica e faleceu no dia 11 de janeiro de 1921. Os imigrantes participaram do rito, mesmo ainda não havendo se convertido. Nessa sua primeira visita, Ito aconselhou seus familiares sobre o futuro: seu irmão Shozo se casou com a viúva do irmão falecido e adotou o filho órfão. Seus familiares foram as primeiras pessoas que Ito batizou em solo brasileiro, no dia 28 de março de 1923. Nessa visita, Ito também percorreu a colônia, indo de casa em casa para agradecer a ajuda prestada a sua família. Acreditamos que a comoção que envolvia essa primeira visita abriu as portas para a eficaz evangelização que Ito promoveu. Foi em Registro que foi edificada a primeira construção religiosa dos japoneses no Brasil, o templo da Igreja Anglicana de Todos os Santos.
Evangelismo incansável. O rev. Ito viveu a exortação paulina de proclamar a Palavra a todo tempo e com toda paciência (2Tm 4,2). No cumprimento de sua missão, uniam-se firmeza e mansidão. Alguns diziam que Ito pregava muitas vezes de forma enérgica, mas também “no altar, tinha um rosto bondoso e sereno ao pregar o sermão. Com os olhos fechados, tinha um ar de santo”, conforme Tokio Fujii, um dos primeiros fiéis (KAWANO, 2010, p. 136). Quando estava chegando ao Brasil, Ito conheceu, ainda no navio, um padre católico romano que lhe encorajou em sua empreitada missionária, ressaltando que por mais inóspito que fosse o lugarejo, “Deus Pai o acompanhará e o ensinará o que dizer e o que fazer” (KAWANO, 2010, p. 27). Ito que, para alguns de seus colegas, parecia um “aventureiro sonhador”, recebeu encorajamento de um padre católico! Durante sua viagem pelo litoral brasileiro até chegar ao Rio de Janeiro, meditava na vida de São Paulo e de São Francisco e fez a seguinte oração: “Não permita que eu fique somente a lamentar a escuridão do mundo” (KAWANO, 2010, p. 26).
Em 10 de maio de 1923, Ito empreendeu uma viagem pelo noroeste do estado de São Paulo. Essa viagem foi importante para definir a forma como se daria sua atuação no Brasil. Em Lins, Ito intentou comprar lotes de terra de Shuhei Uetsuka, fundador das colônias Uetsuka. Este negou a venda, alegando que Ito deveria continuar pregador itinerante por toda vida, motivo pelo qual não precisaria de um pedaço sequer de terra. Ito recebeu essas palavras como orientação do Espírito Santo e, por isso, não ergueu nem um muro nem uma cerca. Contudo, planejou a missão japonesa, viajou sempre buscando alcançar quantas pessoas fosse possível. Viajou de trem, cavalo, caminhão, a pé, de carona, embarcação a vapor. Muitas vezes, perdeu-se nas estradas, suportou a fome e, sem achar um teto, dormiu ao relento (KAWANO, 2010, p. 41).
Ito estava apto para toda boa obra (2Tm 3,17). Ajudou os agricultores na colheita27. Com uma máquina que sempre levava na bolsa, cortava os cabelos dos
27 Relata Fukashi Mori que, após lhe ensinar como colher algodão e trabalhar ao seu lado, o reverendo teria lhe dito: “minha senhora, hoje eu ajudei a senhora a colher o algodão. Amanhã, à noite, venha ouvir o sermão”. E ela conclui: “Em nenhum momento, o reverendo perdia a oportunidade de evangelizar” (KAWANO, 2010, p. 51).
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colonos. Na mesma bolsa, levava também, muitas vezes, vacinas e remédios. Deu aulas de ginástica e promovia sempre gincanas com as crianças. Ensinou a cozinhar os pratos da culinária ocidental e também etiqueta e boas maneiras. Foi um casamenteiro, pois os pais muitas vezes pediam para Ito arranjar alguém para seus filhos. Tendo, por meio de um ex-professor seu do Seminário, conseguido cartas de recomendação de bispos japoneses ao bispo Kinsolving, do Brasil, Ito foi recebido na Igreja Episcopal Brasileira. Desde a vinda dos primeiros missionários, o foco era a evangelização dos brasileiros. Porém, Ito convenceu Kinsolving da necessidade de evangelizar os imigrantes, cujo número aumentava a cada dia. No ano de 1923, a única igreja da Comunhão Anglicana em São Paulo era a dos ingleses, Saint Paul’s Church, que abrigou a missão japonesa. Ito esforçou-se para que a missão japonesa não se tornasse um quisto dentro da própria igreja. Nas visitas dos bispos, traduzia os sermões destes do inglês para o japonês. Em 1929, ficou enfermo e, para se recuperar, viajou para o Japão, onde ficou hospedado na casa do bispo Naide, que o aconselhou a se casar com sua filha, Ayako. Voltou para o Brasil casado em 1930 e a família Ito se instalou no edifício da Capela do Salvador, onde Ito foi coadjutor. Ito buscava acolher os imigrantes que vinham do interior para São Paulo (alguns jovens vinham estudar na capital, frequentemente alguém precisava de atendimento médico). Por isso, comprou o terreno de uma fábrica desativada no bairro de Pinheiros, onde foi fundada a Paróquia São João, que passou a ser a sede da missão anglicana japonesa. Os que adoeciam Ito encaminhava para o Hospital Samaritano, cujo diretor era seu conhecido. O reverendo visitava-os nos seus leitos, e sua presença era muito esperada pelas crianças no hospital, devido ao seu bom humor.
Também Ito recebia os imigrantes que chegavam ao porto de Santos. Em 1933, ano da fundação desta paróquia, Ito também lançou o Boletim Informativo, pois sentiu a necessidade de recorrer a textos para evangelizar, já que os japoneses se distribuíam por uma área muito extensa.
Em 1938, Yasoji Ito foi nomeado arcediago pelo bispo William Thomas. Sua função era auxiliar o bispo na coordenação do trabalho de evangelização junto às comunidades japonesas. Foi o primeiro diretor-presidente da Federação dos Cristãos Japoneses. Esforçou-se por promover a cooperação entre cristãos de diferentes denominações e também cuidava dos pregadores japoneses que vinham ao Brasil. Fundou, além da igreja em Registro e da Paróquia São João, várias paróquias e missões no interior do estado de São Paulo e no noroeste do Paraná. Procurou ser modelo de boas obras (Tt 2,7).
Vocação de outros missionários. Na expressão do reverendo Yuba (1993, p. 51), “o evangelismo fervoroso faz nascer novos evangelistas”. Ainda para Yuba, o reverendo Ito era um homem de “absurdos”, pois enviou jovens para estudar no Japão sem nenhuma garantia se seriam recebidos pelos seminários ou como se sustentariam, mas apenas crendo que “Deus faria alguma coisa”. Uma parte importante da liderança é justamente reconhecer talentos e dedicar-se para formação de novos líderes, conforme o conselho bíblico (2Tm 2,2). Ito demonstrou ter uma sensibilidade neste aspecto e uma grande capacidade de inspirar jovens a seguir a “boa tarefa” (1Tm 3,1).
O primeiro a ser recrutado por Ito para a obra missionária foi Paulo Kiyoshi Iço, professor de japonês para as crianças da colônia onde morava. Acompanhara Ito alguns http://revistas.pucsp.br/culturateo
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dias no trabalho missionário em Birigui e ficara impressionado com o amor de Ito pelos imigrantes, começando, a despeito de sua primeira vontade de ser médico, a desejar ser como ele, o que o fez responder favoravelmente à interpelação de Ito para que voltasse ao Japão para estudar teologia. Juntou seu salário de professor e comprou sua passagem de navio para o Japão. Ito organizou com os pais dos alunos uma festa de despedida para arrecadar o restante do dinheiro necessário. Quando retornou do Japão foi designado a trabalhar na Igreja de Todos os Santos de Registro.
Barnabé Guenzo Ono chegara ao Brasil com apenas treze anos e o curso primário completo. Trabalhou duro, transportando com uma carroça as colheitas dos imigrantes. Foi com suas poucas economias que comprou a passagem para o Japão. Ito havia lhe dito: “Vá! Deus fará alguma coisa”, e acompanhou-o até o porto de Santos. Havia muitas pessoas para acompanhar outros viajantes e apenas Ito acompanhava Ono. Quando o navio zarpou, Ito ajoelhou-se e ficou orando pelo rapaz que ia ao Japão sem certezas de que seria recebido por algum seminário. Do navio, Ono via a figura do reverendo que ficara ali ajoelhado mesmo depois de todas as outras pessoas terem ido embora. Ono chorou olhando a figura de Ito até não mais poder ser visto pela distância. No Japão, bateu em muitas portas, até ser recebido pelo seminário da cidade de Fukuoka, na província de Kyushu, onde se formou com boas notas.
Takeo Shimanuki era filho do fundador da Rikkokai e havia vindo ao Brasil, aos seus 18 anos, com a ideia de ficar rico. Seus planos não deram certo, apesar de sua insistência. O rev. Ito, então, aconselhou: “Shimanuki, é impossível servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Desista da ideia de enriquecimento rápido e trabalhe para a Rikkokai, como fez seu pai”. Shimanuki era vendedor ambulante. Depois que se tornou missionário, continuou indo de porta em porta, mas agora carregando a Bíblia dentro de sua bolsa. A Missão Japonesa já contava com o apoio da Igreja no Brasil. Por isso, Shimanuki e os vocacionados posteriores não precisaram ir estudar no Japão, mas foram ao Seminário em Porto Alegre.
Estevam Shigueru Yuba morava na Colônia Aliança28 e ficara impressionado com Ito desde a primeira visita que ele fez à sua família recém-chegada ao Brasil, para a qual teve que viajar três dias, partindo da cidade de São Paulo. No dia seguinte, olhando Ito partir a cavalo, Yuba relata: “achei que havia uma luz que pairava sobre ele, talvez pelo sentimento de gratidão que eu tinha” (YUBA, 1993, p. 42). Depois, Ito tentou recrutar um membro da família para o ministério pastoral. O irmão mais velho de Yuba recusou. Os pais de Yuba, então, lembraram que ele caíra quando criança de uma ponte sobre pedras e fizeram a promessa de que, se ele se curasse, seria oferecido a Deus. Assim, Yuba partiu para o seminário após sua mãe lhe costurar uma roupa, pois ele não tinha uma vestimenta decente para fazer essa viagem.
Paulo Yuji Kanero e Samuel Kumpei Kainuma, membros da Rikkokai, também foram recrutados por Ito para o seminário, e também Sumio Takatsu, que se tornou um importante teólogo e chegou a ser sagrado bispo da diocese anglicana de São Paulo.
28 Ito deu o nome a essa colônia a pedido de dois dos seus fundadores que queriam um nome da Bíblia. Ito escolheu “Aliança” para expressar a união entre Brasil e Japão, a cooperação de toda a colônia e a comunhão do homem com Deus (KAWANO, 2010, p. 64).
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A 2ª Grande Guerra. No período da Segunda Guerra Mundial, houve no Brasil um recrudescimento da representação negativa do japonês, alvo da desconfiança oficial e também popular. Os japoneses foram “avaliados como aqueles que trazem dentro de si um germe, um risco em potencial (…), perigo à segurança do Estado” (TAKEUCHI, 2008, p. 29). O regime estadonovista investiu contra as comunidades estrangeiras a partir de 1938: o decreto-lei n. 868, de 18 de novembro de 1938, concedia ao Conselho de Ensino Primário o poder de nacionalizar as instituições estrangeiras de ensino, o que resultou no fechamento de escolas japonesas; o decreto-lei n. 383, de 18 de abril de 1938, proibia-lhes desenvolver atividades de caráter político, a não ser de cunho cultural, cívico ou beneficente, também estava proibida a publicação de revistas e jornais; o decreto lei n. 431, de 18 de maio de 1938, criava o Conselho de Imigração e Colonização, que tinha como função formular uma política imigratória e colonizadora a partir das conclusões da Antropologia Social, da Biologia Racial e da Eugenia, objetivando selecionar os imigrantes, impedir a concentração de indivíduos de mesma nacionalidade e a compra de terras por parte deles (TAKEUCHI, 2008, p. 32, 37-39).
A Igreja Anglicana29 viu-se em um momento difícil, pois no seu seio havia japoneses, ingleses e norte-americanos, nacionalidades que estavam em conflito mundial. Houve um abalo na relação entre os reverendos e os japoneses. Conta Ito que, dentro das missões japonesas, “o bispo [Thomas] se sujeitou a um tratamento vergonhoso” (in KAWANO, 2010, p. 115). Também o bispo Thomas, muitas vezes, foi detido pelas autoridades brasileiras que achavam ser ele alemão. O rev. Shimanuki e o rev. Ito também foram detidos pela polícia em Porto Alegre, quando voltavam, de navio, para São Paulo do Concílio da Igreja. Tiveram que descer em Santos. Seus pertences foram revistados. Foram levados à delegacia onde foram interrogados e ficaram presos. Quando liberados, voltaram de trem para São Paulo. Os japoneses que tinham aversão aos americanos tiraram seus filhos da escola dominical e não recebiam Ito quando ia entregar o boletim informativo.
Para driblar a proibição legal, Ito pediu ao rev. Gaudêncio Vergara ser o editor responsável do Boletim Informativo, e continuou a editá-lo com o nome de “O Missionário”, com a primeira página em português. A partir de 20 de julho de 1941, a publicação teve, contudo, de ser paralisada, só retornando em 20 de dezembro de 1947, com um novo nome: Dendo (evangelização). Para o governo brasileiro, os cidadãos japoneses que tinham estudos superiores representavam perigo à segurança nacional, se ficassem em regiões próximas à capital ou ao litoral. Essa foi a razão porque o rev. Paulo Ito, que estava em Registro, teve que ir para Maringá. As celebrações em língua japonesa não eram mais permitidas. Lembra Yuba (1993, p. 72) que “para fazer visitas evangelísticas tinha que se ter um tipo de ‘autorização de saídas’. Era preciso escrever o nome da região a ser visitada, para ser investigado, e a autorização tinha até o período de validade. Até o retorno tínhamos que andar sempre com a autorização em mãos”.
Em 1940, o Japão comemorou 2600 anos de fundação. Ito foi cumprimentar os expoentes da colônia que foram assistir as solenidades no Japão, de onde voltaram maravilhados com sua força. Já prevendo o desfecho da guerra, Ito lhes respondeu: “De
29 Também a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) passou por momentos difíceis com membros e clérigos, por serem descendentes de alemães, sobre suspeita.
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nada adiantam essas coisas, pois no dia da derrocada do Japão, tudo isso desaparecerá”. Após a Guerra, os imigrantes japoneses se dividiram em dois partidos: os que admitiam a derrota do Japão (makegumis) e os que afirmavam a invencibilidade do Japão (kachigumis) (OZAKI, 1990, p. 19). Estes passaram a perseguir aqueles. “Uma das consequências, a mais conhecida e dramática, foi a criação de grupos radicais como a Shindo-Tenmei, formada por japoneses inconformados com a derrota japonesa na guerra, postura que culminou com a cisão e o terror entre os imigrantes” (TAKEUCHI, 2008, p. 30). Ito previa a derrota do Japão porque as notícias que chegavam diziam a mesma coisa, o que para ele era sinal de manipulação.
Após serem forçados a reconhecer que o Japão perdera a guerra e estava destroçado, “os que pertenciam ao gupo dos vitoriosos foram facilmente para as novas religiões, talvez como uma forma de esconder todos esses ressentimentos” (YUBA, 1993, p. 74). Os anglicanos japoneses tinham que tomar uma decisão: “criar seus descendentes para que fossem educados como bons brasileiros” (YUBA, 1993, p. 73). Ito insistiu para as celebrações continuassem sendo feitas em português, porque, conta-nos seu filho Pedro Issáo, a nova geração, para ele, deveria “ser rapidamente integrados à sociedade brasileira” e, para isso, a prática religiosa “deveria ser a primeira a facilitar esta integração, adotando o português como língua oficial” (KAWANO, 2010, p. 2). A ideia de Ito encontrou resistência, inclusive de seu próprio filho, mas prevaleceu contribuindo para que não houvesse mais igrejas “dos japoneses”, mas paróquias abertas a toda sociedade.
Últimos Anos. Pouco antes de aposentar em 1957, rev. Ito foi substituído na Paróquia de São João pelo rev. Yuba. Aposentado, foi para Igreja de Todos os Santos de Registro, onde atuou ainda por dois anos, depois voltou a São Paulo. Voltou a fazer parte de Paróquia de São João, atendendo a todos que o procuravam. Dedicou-se a seus passatempos favoritos, que eram a marcenaria e a jardinagem. Toda manhã, enquanto teve para isso saúde, cuidava do seu jardim meditando. Em 7 de julho de 1968, ano da comemoração dos 45 anos da missão japonesa, Ito recebeu, com quase 80 anos, a Comenda Marechal Rondon da Sociedade Geográfica Brasileira. Mesmo debilitado fisicamente, a ponto de ficar com a mobilidade reduzida, não deixou de ir dominicalmente à Paróquia de São João, pois dava muita importância em receber a comunhão junto de seus irmãos na fé. Não deixou de fazer isso mesmo quando ficou de cadeira de rodas. Tanta devoção impressinou muito os paroquianos. Faleceu em 7 de agosto de 1969, de pneumonia, com quase 81 anos. Seu nome foi dado a praça que fica em frente a Paróquia de São João.
Razões para o sucesso do ministério de Ito. Um líder espiritual não deveria jamais recorrer ao hard power para sua ação. Isto é, jamais recorrer a artífices como medo e coação. O cientista político norte-americano Joseph Nye (2004) fala de uma forma de liderança que ele chama de soft power. Para ele, o líder deve propor valores que podem ser compartilhados pela ampla parcela da comunidade que lidera: “Se o líder representa valores que a maioria das pessoas desejam seguir, custa menos comandar” (NYE, 2004, p. 6). Sua relação com os liderados não é estática, mas dinâmica, haja vista não firmada numa instituição. Por isso, o líder sempre deve buscar o convencimento. http://revistas.pucsp.br/culturateo
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Embora Nye discuta estes conceitos no plano do poder das relações internacionais, eles parecem se aplicar a qualquer situação, muito particularmente à liderança cristã, pois para ele o convencimento requer simbolismo, atratividade e valores que sejam vistos como legítimos. Ou seja, o poder do líder está na imagem que passa aos seus liderados. Parece-nos que, no caso do rev. Ito, ocorreu exatamente a identificação entre os seus valores e os valores daqueles a quem pretendia evangelizar e prestar auxílio espiritual, ainda que ele fosse anglicano e se dirigisse a compatriotas budistas em sua maioria.
Mizuki (1992 apud KAWANO, 2009) aponta, como razões para os excelentes resultados alcançados, dedicação sem medida, pregações em escolas e locais de reunião dos japoneses e sermões que falavam direto ao coração dos agricultores. Sua atividade incluía cortar cabelos, ajudar os colonos na colheita, auxiliar aqueles que iam do interior para a cidade de São Paulo, aulas de ginástica… “Planta a tua semente aqui e ali, pois não sabes qual germinará”, diz o Eclesiastes. Essa variedade de atividades contribuiu para eficácia de seu ministério. Mas o sucesso de um empreendimento depende não somente da virtú, mas também da fortuna, como preconizara Maquiavel. Muitos dos imigrantes já tinham tido algum contato com o cristianismo através da Rikkokai. Foi, contudo, o fato dos dois irmãos de Ito antecederem sua chegada a Registro, bem como outros vindos de sua região de Nagano, que lhe abriu as portas para o sucesso de sua missão. Não foi só no Japão que Ito recebeu apoio da Rikkokai, mas também durante seu trabalho no Brasil e “além disso, encontrar membros dessa associação já em São Paulo, favorecia o seu trabalho missionário” (KAWANO, 2010, p. 16). Alguns dos japoneses que vieram já eram também anglicanos.
Há vários testemunhos de que o rev. Ito era um eloquente pregador, falando sempre com muita emoção e conseguindo se comunicar bem a todas faixas etárias, inclusive sendo muito amado pelas crianças. Todavia, são outras as suas características que são apontadas pelos que conviveram com ele como mais marcantes: seu semblante sempre calmo e sua enorme disposição em sempre ajudar, bem como sua perseverança em andar vários quilômetros para fazer o seu trabalho30. Muitos dos japoneses que vinham ao Brasil pensavam que aqui passariam pouco tempo, fariam fortuna e voltariam ao Japão, razão pela qual não apresentavam, no início, muito interesse pela religião, apenas pelo trabalho. Essas expectativas foram frustradas. Daí que a “sede espiritual” passou a se manifestar.
Um símbolo da atuação do reverendo Ito31
“A nossa carta sois vós”
2 Coríntios 3,2
Como a glória de um pai são seus filhos (Eclo 3,2), assim também a alegria de um pastor são suas igrejas (3Jo 4). Ito fundou a maior parte das paróquias da Diocese
30 Yuba (1993, p. 42), por exemplo, testemunha: “não me lembro nada do conteúdo de seus sermões. Mas as atitudes de amor que demonstrou, ficaram gravadas nos nossos corações, de uma maneira que nos deu grande força”.
31 Aqui também a principal fonte de informação são os livros de Carmen Kawano (2008 e 2010).
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Anglicana de São Paulo. Tomaremos, contudo, como símbolo do que foi sua atuação, a Paróquia de Todos os Santos, de Registro – SP, cuja construção iniciou-se em 1928 e terminou em 1929. Trata-se da primeira construção religiosa dos japoneses no Brasil. Conforme Carmen Kawano (2009), é importante diferenciar entre comunidades japonesas e comunidades de maioria ou grande quantidade de descendentes de japoneses. Saliente-se que Ito se esforçou para que as paróquias que ele fundou e liderou se integrassem à cutura brasileira:
As primeiras são formadas por japoneses propriamente ditos, imigrantes que vivem no Brasil, mas conservam sua cidadania japonesa, e celebram em japonês. Nas últimas, os descendentes são cidadãos brasileiros, e são melhores designados como nikkeis. Naturalmente, nessas comunidades, as celebrações acontecem em língua portuguesa.
A Paróquia de Todos os Santos localiza-se na área rural, há 15 quilômetros da cidade de Registro. Tendo sua construção se iniciado em 1927, foi inaugurada em 1929. A cidade de Registro foi reconhecida em 2006, por seu valor para a história dos japoneses no Brasil. A Paróquia de Todos os Santos, com todos os seus móveis, foi tombada pelo IPHAN em março de 2013, sobre o número de processo 1565-T-2008 (INFOPATRIMÔNIO). “O processo de tombamento junto ao IPHAN foi iniciado pela comunidade nipônica registrense através de sua associação local, isso representou um interesse muito grande de pessoas de outras religiões em preservar este belo templo Anglicano” (IEAB, 2010). Conforme opinião de Mori (1992 apud NASCIMENTO; SCIFONI, 2016, p. 46), a construção de igrejas católicas em áreas de colonização japonesa no território paulista, como ocorreu em Registro, Promissão e Álvares Machado, significava mais uma manifestação da vontade de adaptação ao ambiente brasileiro que propriamente uma conversão ao catolicismo. Tal não podemos dizer da conversão ao anglicanismo. Aliás, esse constitui, como o protestantismo de uma maneira geral, uma espécie de “corpo estranho” à cultura brasileira. Esse fenômeno da própria condição de imigrante, com todas as afeições e emoções daí advindas, reforça-se com eles separados por uma instituição religiosa que lhes preste orientação e auxílio espiritual.
Em Registro, os imigrantes que se tornaram católicos construíram uma igreja cujo padroeiro é São Francisco Xavier, o missionário jesuíta que levou o cristianismo ao Japão. Como observara Scifoni e Nascimento (2016, p. 46), no entanto, “não há referências às técnicas e à estética da arquitetura japonesa”. Diferentemente, a Paróquia Anglicana de Todos os Santos foi construída com um aspecto que lembra os templos japoneses. Conjecturamos que isso represente que a conversão desses japoneses ao anglicanismo se deu dentro de um paradoxo “ruptura-continuidade”, vendo na liturgia anglicana (principalmente na liturgia tipo low church32, isto é, evangelical, como era
32 É usual dividir as tendências no seio do anglicanismo como low church (ou evangelical), high church (ou anglo-católico) e broad church (liberal). Conforme Chapman (2006, p. 3), “the history of the Church of England from the 18th century is the search for an alternative locus of authority after the breakdown of the Divine Right of Kings. Some looked for authority in the direct experience of God in the heart or in God’s Word as set forth in Scripture (the Evangelicals). Others sought it in God’s appointed messengers, the bishops (the Anglo-Catholics)”, e também “there were, of course, many churchmen through the 19th http://revistas.pucsp.br/culturateo
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própria de Ito33) o mesmo aspecto de sobriedade e disciplina que antes encontravam no budismo. Assim, concordamos com Scifoni e Nascimento (2016, p. 47) quando dizem que essa “Igreja Episcopal mostra os esforços dos colonos de manutenção da própria cultura e religiosidade”. Sempre algo permanece naquilo que se transforma.
O terreno para a construção foi doado pela senhora Assayo Ikegami. Ela estivera muito doente, mas, após o rev. Ito orar por ela, teve uma melhora incrível. Daí resolveu fazer a doação. A construção foi feita pelos próprios fiéis e o material usado, com exceção dos vidros e metais, era o que estava disponível na comunidade. Optou-se pela técnica japonesa que dispensa pregos. O nome desta Paróquia foi escolhido devido à imensa saudade que os imigrantes sentiam de seus parentes (KAWANO, 2008). Na verdade, até hoje são os cultos em memória34 as celebrações mais acorridas pelos nikkeis anglicanos, “hábito ou valor que vêm da cultura japonesa, de um certo budismo ainda impregnado ou persistente, que realiza o culto aos antepassados, com a forte idéia de respeito e agradecimento” (KAWANO, 2009). Embora grande parte da comunidade tenha se mudado para a cidade e, por isso, a Paróquia de Cristo Rei é hoje onde se concentra a maior parte das atividades do anglicanismo em Registro, seguem acontecendo, na Igreja de Todos Santos, atividades mensais e especiais e “seu estado de preservação é um testemunho do carinho de gerações de anglicanos que contribuem para enriquecer a diversidade do anglicanismo brasileiro” (IEAB).
Considerações finais
“esse migrante que mora entre vós, tratá-lo-eis como um nativo, como um de vós”
Levítico 19,34
A nosso ver, a atuação missionária do Reverendo João Yasoji Ito constitui um interessante capítulo na integração dos imigrantes japoneses à cultura brasileira. Ele foi o primeiro missionário japonês, tanto do cristianismo como de outras religiões, a vir ao Brasil. O sucesso de seu ministério parece que se deveu a características próprias de sua personalidade, à variedade de tarefas a que se dedicou, mas principalmente à sua identificação com os agricultores. Essa Identificação veio não só de sua história familiar, mas também de sua experiência de trabalho nas colheitas nos Estados Unidos. As condições incômodas de vida nas primeiras colônias, a decepção de muitos jovens japoneses de fazer fortuna e voltar logo ao Japão, a falta de outro líder espiritual de origem japonesa, uma devoção bastante sóbria, como sóbrio era o budismo por eles praticado… esses foram
century who were neither Evangelicals nor Anglo-Catholics. They were often labelled ‘Broad Churchmen’” (CHAPMAN, 2006, p. 86).
33 O background de Ito era completamente evangelical. Vale lembrar que Ito estudara, na infância, a Bíblia com metodistas e, quando estudava na Escola de Navegação, enquanto o navio aportava, visitava diferentes igrejas evangélicas. Chegou até a ser pastor auxiliar de seu amigo rev. Junkichi Mori na Reformed Church nos Estados Unidos. Já as paróquias com origem nas capelanias inglesas têm características mais próximas do anglo-catolicismo.
34 Para outras igrejas, essa é uma prática ainda polêmica, mas entendemos pessoalmente como forma de cumprir o segundo mandamento (Êx 20,12), aquele com promessa (Ef 6,2) e de dar honra a quem de direito (Ro 13,7).
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fatores externos que tornaram o público mais aberto à oferta religiosa anglicana. O caminho de integração desses imigrantes e seus descendentes à cultura brasileira foi longo e estreito. Ainda há muito a percorrer. O reverendo Ito foi um dos primeiros a ver a necessidade de trabalhar este ponto, insistindo para que, depois da 2ª Guerra Mundial, os cultos fossem celebrados em língua portuguesa. Antes disso, sua atuação foi importante para que os anglicanos de origem japonesa não formassem um quisto no seio da própria igreja anglicana no Brasil. Para isso, foram importantes os tempos que passara nos Estados Unidos. Ainda hoje, porém, passados 110 anos de imigração, os descendentes desses imigrantes são vistos mais como japoneses do que como brasileiros.
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Vídeos Sobre o Anglicanismo
O ANGLICANISMO NO BRASIL. Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Jornalismo Internacional, por Débora Aparecida Settim. Orientador: Prof. Dr. Júlio http://revistas.pucsp.br/culturateo
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29 de agosto – Martírio de João Batista

ago 29 2020

Como Foi a Morte de João Batista?

A prisão de João Batista

A Bíblia diz que Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia e da Pereia, mandou prender João Batista. O próprio texto bíblico revela qual foi a principal motivação da prisão de João Batista: Herodes Antipas mandou prendê-lo por causa de Herodias (Marcos 6:17).

Alguns comentaristas sugerem que talvez também fizesse parte dessa motivação a desconfiança de que João Batista poderia representar alguma ameaça popular ao poder de Herodes Antipas. Seja como for, tudo o que envolveu a morte de João Batista esteve diretamente relacionado à pressão de Herodias.

A Bíblia também explica por que Herodias queria ver João Batista morto. Essa mulher havia sido casada primeiramente com Herodes Filipe, seu meio-tio e também meio-irmão de Herodes Antipas. Desse casamento nasceu Salomé, uma mulher que não citada nominalmente na Bíblia, mas é chamada simplesmente de “filha de Herodias”.

Aconteceu que Herodes Antipas e Herodias acabaram se apaixonando. Os dois se separaram dos seus cônjuges e não demorou para que Herodes Antipas se casasse com sua própria cunhada. Quando João Batista soube disso, reprovou a atitude de Herodes Antipas e começou a repreendê-lo reiteradamente. João dizia: “Não te é lícito possuir a mulher de seu irmão” (Marcos 6:19).

Com tal denúncia, João Batista acusava o governante de ser um adúltero e incestuoso (cf. Levítico 18:16; 20:21). A reprovação de João acabou deixando Herodias completamente irada. Foi esse o contexto de sua prisão.

Mas Herodias também não estava satisfeita com o fato de João Batista ter sido encarcerado. Ela queria mais. Na verdade ela odiava o profeta e queria matá-lo a qualquer custo. O problema é que Herodes Antipas temia João Batista. Ele sabia que João era inocente; além disso, ele também sabia que João Batista era aclamado pelo povo como sendo um profeta (Mateus 14:5; Marcos 6:20).

O desejo pela morte de João Batista

O desejo de vingança da mulher de Herodes Antipas não foi aplacado. Provavelmente depois de cerca de pouco mais de um ano de prisão, João Batista terminou sendo levado à morte. A festa de aniversário de Herodes Antipas foi o evento que desencadeou a morte de João Batista.

Herodes Antipas promoveu um grande jantar que contou a presença de pessoas muito importantes da época. Num certo momento da festa, talvez já no final quando todos estavam embriagados, a filha de Herodias entrou na presença de Antipas e dançou para ele. Todo o contexto indica que aquela foi uma dança sugestiva, carregada de erotismo. Então envolvido e impulsionado pela situação, Herodes Antipas disse para moça que lhe daria tudo o que ela quisesse.

A jovem saiu e foi se aconselhar com sua mãe, que lhe disse para pedir a cabeça de João Batista. Então rapidamente a jovem foi ter com Herodes Antipas e fez o sinistro pedido: “Quero que, sem demora, me dês num prato a cabeça de João Batista” (Marcos 6:25).

O imediatismo empregado no pedido da jovem deixa claro que o plano era para que João Batista não pudesse escapar da morte; bem como o próprio Herodes Antipas da promessa que havia feito. Em outras palavras, literalmente ela pediu: “Quero a morte de João Batista aqui e agora”.

A Bíblia diz que Herodes Antipas ficou muito entristecido com o pedido pela morte de João Batista. É provável que essa tristeza tenha sido uma mistura de certa admiração pessoal por João, com o medo da reação popular. De qualquer forma, seu orgulho lhe impediu de declinar do pedido da moça.

Fonte: Daniel Conegero

31 de agosto – Aidan de Lindisfarne

ago 25 2020

31 de agosto – Aidan (ou Edano) de Lindisfarne

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Santo Edano de Lindisfarne, Bispo e Apóstolo da Nortúmbria; Taumaturgo
Nascimento: Connacht, Irlanda
Morte: 31 de agosto de 651 em Parish Churchyard, Bamburgo, Nortúmbria
Veneração por: Igreja Católica, Igreja Ortodoxa, Comunhão Anglicana, Igreja Luterana
Principal templo: originalmente a Abadia de Lindisfarne, Nortúmbria; posteriormente disputado entre a Abadia de Iona e a Abadia de Glastonbury (todas destruídas).
Festa litúrgica: 31 de agosto (Igreja Católica, Comunhão Anglicana), 9 de junho (Igreja Luterana)

Edano ou Adão de Lisdisfarne (em latim: Aedanus), conhecido como o Apóstolo da Nortúmbria (Connacht, ? – Bamburgo, Nortúmbria, 31 de agosto de 651), foi o fundador e primeiro bispo do mosteiro na ilha de Lindisfarne, na Inglaterra. Como missionário cristão, é creditado a a ele a restauração da cristianismo naquela região. Em 2008, ele foi proposto como o provável santo padroeiro do Reino Unido.


Irlandês, possivelmente nascido em Connacht, Edano foi um monge no mosteiro da ilha de Iona, na Escócia.

O Império Romano havia espalhado o cristianismo no território bretão, mas devido à invasão anglo-saxã das ilhas Britânicas, o paganismo anglo-saxão agora era a religião dominante. Osvaldo da Nortúmbria e seus irmãos, viveram entre os gaélicos de Dál Riata como príncipes exilados desde suas expulsões por uma casa real rival em 616. Provavelmente Osvaldo visitou o mosteiro da ilha de Iona, e certamente converteu-se ao cristianismo, e foi batizado. Em 634, recuperou o reino da Nortúmbria, e estava determinado a trazer o cristianismo para a maioria daquela população pagã.

Devido ao seu passado entre os gaélicos, ele solicitou missionários de Iona, o mosteiro pré-eminente dos irlandeses, onde atualmente fica a Escócia, em vez dos missionários da Inglaterra. Inicialmente o mosteiro enviou um bispo novo chamado Cormano, mas ele não obteve sucesso algum e logo retornou a Iona, relatando que os nortúmbrios eram por demais teimosos para serem convertidos. Edano criticou os métodos de Cormano e foi enviado como substituto em 635.[2]

Edano escolheu Lindisfarne, assim como Iona, uma ilha, e próxima à fortaleza real de Bamburgo (Bamburgh), para ser a sede de sua diocese. O rei Osvaldo, que após seus anos de exílio, tinha um domínio perfeito do irlandês, muitas vezes tinha que servir de tradutor para Edano e seus monges, que no começo não falavam inglês. Quando Osvaldo morreu em 642, Edano continuou a receber apoio do rei Osvino de Deira e os dois tornaram-se amigos íntimos.

Um inspirado missionário, Edano percorreu a pé uma aldeia após outra, educadamente conversando com as pessoas que ele encontrava, e aos poucos, despertando-lhes o interesse pelo cristianismo. Segundo a lenda, o rei deu a Edano um cavalo para que ele não precisasse mais andar durante sua missão evangelizadora, mas Edano deu o cavalo para um mendigo. Com paciência, conversando com as pessoas em seu próprio nível, Edano e seus monges lentamente trouxeram o cristianismo para as comunidades nortúmbrias. Edano também acolheu doze meninos ingleses para treiná-los no mosteiro, a fim de assegurar que a futura liderança religiosa da região fosse inglesa.

Em 651, um exército pagão comandado por Penda atacou Bamburgo e tentou incendiar suas muralhas. Segundo a lenda, Edano rezou pedindo a proteção divina para a cidade, após o que, a direção do vento mudou e a fumaça e o fogo sopraram na direção do inimigo, repelindo-os. Daí ele ser considerado o protetor daqueles que combatem incêndios.

Edano foi um membro do ramo irlandês do cristianismo, em oposição ao que poderíamos chamar de ramo romano, ou latino, mas seu caráter e sua energia no trabalho missionário granjeou a seu favor o respeito do Papa Honório I e de Félix da Borgonha.

Osvino de Deira, amigo de Edano, foi assassinado em 651. Doze dias depois Edano morreu, em 31 de agosto, no décimo sétimo ano de seu episcopado. Adoeceu quando estava no castelo de Bamburgo, e morreu encostado ao contraforte de uma igreja em uma propriedade real perto de Bamburgo.

O mosteiro que fundou cresceu e ajudou a fundar igrejas e outros mosteiros em toda a região. Tornou-se também um típico centro de saber e guardião do conhecimento da época. São Beda, o Venerável viria a escrever mais tarde a biografia de Edano e descrever os milagres atribuídos a ele. Sua festa é comemorada no dia 31 de agosto (Igreja Católica, Comunhão Anglicana), e em 9 de junho (Igreja Luterana).

13 de agosto – Florence Nightingale

ago 13 2020

Florence Nightingale

Florence Nightingale (Florença/Itália, 12 de maio de 1820-Londres, 13 de agosto de 1910), de nacionalidade britânica, foi a fundadora da Enfermagem moderna. Ela foi a pioneira no tratamento de feridos em batalhas, ficando famosa pela sua atuação na Guerra da Crimeia.

Devido aos seus esforços e estudos, Florence conseguiu a fundação da Escola de Enfermagem no Hospital St. Thomas, na cidade de Londres, em 1860, um marco para a história da Enfermagem contemporânea.

Infância e juventude
Florence nasceu em uma família rica de Florença, ganhando o nome de sua cidade em inglês, já que sua família era de origem britânica. Seu pai, Willian Edward Nightingale, foi um proprietário de terras que estudou em Cambridge e sua mãe, Frances Nightingale, vinha de uma família de mercadores.

O pai de Florence considerava-se progressista em relação à educação das mulheres e melhores condições na sociedade. Com isso, ensinou para Nightingale diversos idiomas como alemão, francês, latim e também música, história e religião.

Mesmo vivendo em uma família rica, Florence não queria seguir os padrões sociais da época para a alta sociedade. A jovem visitava moradores de aldeias vizinhas que estavam doentes e em precárias condições, o que lhe despertou a insatisfação com o tratamento dessas pessoas. Aos 14 anos, ela concluiu que cuidar dos enfermos era sua vocação, o que relatou em suas obras como sendo um chamado de Deus.

Sua família não autorizou que Florence estudasse Enfermagem e que se dedicasse aos cuidados dos doentes pobres. A profissão não era bem-vista até então, e mulheres que a desempenhavam eram pobres ou faziam parte de igrejas, como algo inerente à vocação religiosa.

Ingresso na Enfermagem
Aos 31 anos, Florence entrou para um curso de treinamento no Instituto de Diaconisas de Kaiserwerth, na Alemanha, sob o comando do pastor Theodor Fliedner.

Tempos depois, em 1852, Florence foi a hospitais em Dublin e Edimburgo, locais em que entrou em contato com diferentes condições e métodos de tratamento. No entanto, foi em Paris, no recém-inaugurado Hospital Lariboisiére, que Nightingale vislumbrou alternativas para tratar as pessoas, proporcionando o contato dos pacientes com o ar fresco e a luz.

Florence adotou a Teoria Miasmática, método utilizado na época em hospitais considerados avançados como o de Paris, que tinha como tese que ambientes arejados e com claridade eram capazes de curar vários males e que as doenças poderiam ter origem espontânea com a reclusão em locais escuros e o contato com o lixo. Apesar de a ideia de espontaneidade de doenças ter sido descartada posteriormente, essa mudança nas acomodações e nos tratamentos permitiu a melhora da saúde na Europa, já que muitos lugares eram realmente insalubres.

Guerra da Crimeia (1853-1856)
Com o início da Guerra da Crimeia, milhares de soldados foram trabalhar em hospitais no tratamento aos feridos em conflito. O exército britânico não permitia a contratação de enfermeiras, o que dificultou os cuidados aos combatentes e gerou um estado de negligência.

Por conta das condições desumanas, o ministro Sidney Herbert foi muito pressionado pela opinião pública e teve de tomar medidas para tentar melhorar a imagem do exército britânico. Como conhecia Florence, ele pediu que ela formasse uma equipe e se juntasse às tropas para atender os militares.

Em 1854, Florence tornou-se a chefe de enfermagem em Scutari, na Turquia. Ela encontrou os soldados em péssimo estado e um quadro deficiente de utensílios para higiene pessoal e alimentação. Com seu conhecimento profissional adquirido até então, ela reforçou a limpeza do local, expôs os militares ao ar fresco, criou um plano de alimentação adequado a cada tipo de doente e enfatizou a importância do repouso.

O empenho de Florence e sua equipe foi satisfatório, já que se estima que a mortalidade tenha caído de 42,7% para 2,2%, o que rendeu a ela reconhecimento internacional.

Publicações:

Retrato de Florence Nightingale
Com base no que vivenciou na Guerra da Crimeia, Florence publicou as “Notas sobre questões que afetam a saúde, eficiência e Administração Hospitalar do Exército Britânico”, uma obra com mais de 800 páginas. A publicação teve frutos, como a criação da Comissão Real de Saúde do Exército.

Florence também utilizou a estatística em seus estudos para poder apresentar dados aos membros do exército. Ela usou o chamado diagrama de área polar, gráfico precursor ao de pizza, para exemplificar a contagem de mortes por mês, por exemplo. Com isso, ela foi a primeira mulher a integrar a Sociedade Real de Estatística.

Em sua vida, Florence publicou, aproximadamente, 200 obras, as quais incluíam livros, panfletos e relatórios com sua experiência, observações e crenças sobre a enfermagem. Sua atividade intelectual seguiu até os 80 anos, quando foi impossibilitada de escrever por causa da cegueira definitiva.

Criação da Escola de Enfermagem
Florence Nightingale contraiu febre tifoide na Guerra da Crimeia, e as sequelas dessa doença foram as responsáveis pelo fim de sua atuação na enfermagem de hospitais. Em 1859, utilizando seu tempo acamada, ela desenvolveu o projeto da Escola de Enfermagem do Hospital St. Thomas, em Londres.

O curso tinha duração de cerca de um ano, e as aulas eram ministradas por médicos. Os conteúdos tinham exposição teórica e atividades práticas para profissionalizar os futuros enfermeiros. Alguns fundamentos da escola criada por Florence focavam no atendimento aos pobres, ligação de escolas aos hospitais para treinamento e no ensino por equipe formada na área.

Contribuições para Enfermagem
Além do seu trabalho na Guerra da Crimeia e na criação da Escola de Enfermagem, Florence Nightingale foi uma referência na saúde pública.

A britânica foi consultada durante a Guerra Civil Americana sobre o formas de gerenciar hospitais de bases militares. Já em 1867, sua consultoria foi para o saneamento básico de militares e civis da Índia.


Estátua de Florence Nightingale em Londres
Morte e homenagens
Florence Nightingale morreu em 13 de agosto de 1910, em Londres, aos 90 anos. Ela passou seus últimos anos em repouso absoluto, em sua casa, por causa de complicações tardias da febre tifoide.

Em sua homenagem, a data de seu nascimento, 12 de maio, foi instituída como o Dia do Enfermeiro. No Brasil, comemora-se a Semana da Enfermagem no período de 12 a 20 de maio.

Por Lorraine Vilela
Jornalista